segunda-feira, 17 de março de 2014

A HORA DA CIDADE E A EXPERIÊNCIA URBANA: UMA LEITURA DE A HORA DA ESTRELA, DE CLARICE LISPECTOR


Resumo

Este tem como objetivo discutir o modo como a cidade do Rio de Janeiro é tematizada em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, bem como analisar as relações conflituosas entre a protagonista Macabéa e o contexto urbano à sua volta. Transitamos por alguns comentadores que tematizam a cidade, a sociedade e a literatura, a saber: Calvino (1991), Gomes (1994) Rolnik (1994), dentre outros que problematizam a temática em questão. As discussões revelam que a literatura é um importante meio de representação da sociedade, já que permite o registro da realidade de um momento histórico que pode antecipar tendências e mudanças. No que tange ao processo de modernização e urbanização das cidades, a literatura constrói e posiciona diferentes sujeitos na sociedade. Disponível em

Práticas educativas sobre diversidade sexual no ambiente

educacional: possível ou ainda uma utopia?


Resumo
O presente artigo, a partir de estudos de Louro (2004, 2007, 2010), Michel Foucault (2001a, 2001b), Moita Lopes (2006, 2008), dentre outros, propõe analisar, na materialidade linguístico-discursiva de alguns recortes advindos de três artigos sobre a diversidade sexual no contexto escolar, os efeitos de sentido que perpassam os seus principais pontos em comum e a recorrência de vozes que entrecruzam as práticas discursivas nesses trabalhos. Este estudo, de caráter qualitativo, de base indutiva e interpretativa, revela a necessidade de se empreenderem reflexões acerca da sexualidade no espaço escolar, a partir de práticas educativas sobre a diversidade sexual.
SEXUALIDADES EM TRÂNSITO: JUVENTUDES “DESVIANTES” NA ESCOLA


Resumo
O presente trabalho tem como objetivo problematizar as maneiras (im)postas em que são colocados os alunos e alunas em contexto escolar para viverem uma sexualidade (hetero)normativa . Propõe pensar as sexualidades de certo ponto de vista discursivo tendo como compreensão que os discursos constroem o que podemos ser e o que seremos nos espaços escolares. As discussões são traçadas tendo como algumas indagações, no que se refere ao jovem e ao contexto escolar, a saber: Que modelos discursivos as instituições escolares propagam em relação à diversidade sexual? Em que medida a sociedade, ao não reconhecer a diversidade sexual, nega espaços democráticos de inserção e debates acerca das identidades não hegemônicas na escola? As discussões revelam a necessidade de promover espaços democráticos de inserção da diversidade sexual na escola, para que não haja um silêncio naturalizado e excludente, que pode negar direitos básicos arrolados nos documentos oficiais da educação básica.
SEXUALIDADE(S) EM TRÂNSITO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: UMA POSSÍVEL REFLEXÃO NO CURRÍCULO



RESUMO
O presente artigo tem como principal finalidade investigar nas literaturas recentes os estudos realizados que abordam sobre as práticas educativas acerca da diversidade sexual e a formação de professores (a). O pressuposto teórico do trabalho é pautado pelos estudos de Foucault (2001), Moita Lopes (2004, 2006, 2008); Louro (2004, 2007, 2010); Borrillo (2009), entre outros que problematizam questões de sexualidade e educação. A geração dos dados sobreveio de pesquisas bibliográficas em que se investigou o debate acerca da sexualidade e educação no currículo e a formação do professor(a). Trata-se de uma abordagem de pesquisa de caráter indutivo de cunho interpretativo. O estudo revela que a temática da diversidade sexual no contexto acadêmico não é muito discutida. Percebese que existem práticas simbólicas de invisibilidade e silenciamento por parte da Academia, na medida em que não se problematiza as sexualidades de forma democrática em seus espaços institucionais. A discussão mostra que é urgente que os currículos promovam nos cursos de graduação e pós-graduação, uma formação inicial e continuada ancorada por pressupostos teóricos que versam sobre o debate acerca da diversidade sexual, currículo e das identidades culturais.

sábado, 15 de março de 2014




Começou o dia da Mulher (08/03). Algumas mensagens irritantes e hipócritas. Escrevamos algo mais autoral para refletirmos sobre a condição subalterna e invisível que se constrói essa mulher na sociedade. Pensemos sobre a mulher-objeto fabricada nos anúncios televisivos de cerveja e/ou nos programas de auditórios. Questionemos os discursos que reverberam o machismo falocêntrico e sexista que às vezes aprovam o estupro simbólico além do físico. A mulher deve ter o direito sobre a sua vulva, sobre o seu corpo. Aliás, as suas escolhas devem ser pautadas pelo seu direito ao prazer, ao gozo, muitas nem sabem o que é isso. Que a mulher possa decidir ser o quiser sem a imposição social da procriação. A mulher deve ter nome e sair do privado a que foi imposta desde há séculos. O homem tem o direito ao público, ao pênis eretus em sua forma mais sexualizada. A mulher? Não. Foi construída como um ser castrado que falta algo que a complete. Não, definitivamente ,não.Não creio nesse dia da mulher em que algumas mulheres discriminam aquelas que gozam, sentem prazer e querem o direito sobre os seus corpos. Dia da mulher? Quem sabe no futuro próximo em que não se faça necessário um 'testículo-protesto' como esse. Almejo que esta mulher seja liberta das amarras que se localizam no tempo e na história para que se sinta emancipada e transforme o mundo social.

Entre Corpos e Corporalidades






O que é o corpo? Algo de partida social em que se impõe regras e disciplinas. O corpo como atributo de controle é marcado por diferentes atravessamentos que o circunscreve em ritos e ditos aceitos ou negados pela sociedade. Em séculos anteriores, o corpo não era lembrado e referenciado como na atualidade, pois acreditava-se que, ao lavá-lo, tornava-se impuro,assim, ao deixar sujo, deixava-o 'puro', para que conservasse a vida. Em tempos seguintes, o corpo é algo policiado, marcado pelo olhar do pecado, da desonestidade. O masturbador sabe muito bem disso, já que a sua prática prazerosa, a masturbação, será vigiada pelo olhar panoptiano, daquele que tudo vê. A família, como forma de cercear o prazer, será a instituição que vigia os lençóis e os quartos noturnos, para saber até onde esses corpos estão eretos e gozando o semêm da procriação. O monstro humano, figura foucaultiana, é também um corpo biológico-jurídico transgressor, porque subverte os discursos legais do que é biologia,anormalidade e legalidade. Já nessa contemporaneidade, os discursos constroem corpos e lugares para que ambos sejam ocupados. Têm-se os corpos-objetos, corpos-desejos, corpos-negados, corpos-coisificados, corpos-docilizados (escola, prisão, igreja), corpos-transgressivos, corpos-discursivos. Nesse sentido, hoje, policiamos os corpos em diversos saberes aceitáveis ou não em diferentes discursos.Quando dizemos, por exemplo, sobre o corpo-magro, o corpo-gordo, o corpo-másculo, controlamos as pessoas que habitam esses corpos. Aliás, escravizamo-nas para que estejam nos moldes discursivos de quem possui o poder para dizer o que é ou não aceito na sociedade. Dessa maneira, temos a deusa ciência (nutrição, Educação Física, Medicina), a mídia (corpos-objetos hiperssexualizados) etc, para fabricar verdades que nos aprisionam corpos. Assim, incito a provocação sobre os corpos, para pensarmos sobre os nossos corpos como atributos discursivos, que se digladiam entre o que é legitimado e o que é endossado pelo sujeito (nós também). O corpo ideal é algo passageiro, assim como o foi na Grécia antiga o corpo-adônis. Portanto, para mim, o corpo, além de estar localizado em uma agenda histórica e espacial, é algo que se desloca de acordo com a sociedade e o tempo em que se vive. Deste modo, provoco a todos e todas possuidores de corpos subjugados e escravizados, para pensarem que corpos querem possuir? O vigiado ou o emancipado? Este último, sabe quando e como sentir prazer, sabe como e quando ser o que quiser ser, sabe quando e como dar prazer, a vida, ao outro, a si mesmo...#Corposentrecorpos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014


Dia da Consciência Negra e a Educação
O mês de novembro é muito especial para nós brasileiros, porque é o calendário que homenageia o nosso Zumbi dos Palmares, homem que deixou a sua marca de luta e coragem pelo seu povo há exatamente 318 anos. O seu legado deixado através da sua morte consolida o questionamento da resistência do negro e a escravidão no Brasil Colonial em defesa da República de Palmares. A partir dessa luta travada entre o branco subalternizador de outrora, faz-nos enxergar a diversidade e a lealdade de um povo como conquistas de inclusão do diferente.
Como educador e interessado por alguns tratados teóricos que versam sobre a diversidade humana e a escola, teço algumas reflexões aqui com o objetivo de pensar a relação dessa data (20 de novembro-Dia da Consciência Negra), com a escola que temos e a sociedade que queremos. Para isso, arrola-se a problematização acerca de quando e como o negro foi e ainda é ridicularizado/excluído a partir da discriminação que fazem parte da agenda social cotidiana? Por que a exclusão em relação ao negro se dá através do racismo de maneira silenciosa (invisível) e institucional (explícito e permitido pelo poder público e sociedade como um todo)? Para tentar responder essas perguntas e alcançar o intuito proposto, movimento essa escrita de certo ponto de vista histórico para depois me deslocar na educação indo de encontro ao tratamento do negro em contexto escolar/social.
De acordo com fontes históricas, foram quarenta escravos que fundaram o Quilombo dos Palmares. Com a organização dos foragidos de um engenho de Pernambuco, em pouco tempo esse Quilombo tornou-se uma cidade, devido a fuga de outros escravos que não aceitavam a fundição de ferro imposta pelos “senhores brancos”. Após certo tempo, o Quilombo de Palmares, agora governado pelo rei negro Ganga-Zumba (tio de Zumbi), foi invadido por bandeirantes. Nesse interim, índios e brancos que fugiram , formaram os mocambos, isto é, uma espécie de pequenas vilas. Com a chegada desses bandeirantes, travou-se uma chacina em que foram mortos vários habitantes degolados, dentre estes, crianças, no entanto, uma delas se destacaria das demais mortas, o menino Francisco que fora dado pelos invasores ao padre da vila de Recife, o então senhor Antônio Melo, que depois veio a batizar o menino.
Com a educação esmerada, dada pelo clérigo, aprendera a ler e escrever e teve noções de latim, sendo coroinha, logo em seguida, após iniciar estudos bíblicos. Essa atitude do religioso em relação ao menino negro incomodara a todos que não concordavam que o coroinha fosse tratado como um branco e não um servo como todas as outras crianças negras. Aos quinze anos, regressa à sua terra, que até então oferecia a igualdade identitária que tanto sentira falta, pois o tratamento dado pelos brancos à sua identidade era sempre hostil devido a sua cor. Em seguida à sua volta, fora adotado por outra família e com exímio conhecimento dado pelo pároco, se destaca dentre os demais irmãos, e com dezessete anos torna-se general de armas. Com a morte de seu tio, o rei Ganga-Zumba, dada posteriormente ao tratado feito com os “brancos do engenho”, Zumbi assume o posto e luta a favor de seu povo, defendendo a desopressão e a liberdade para o negro. Infelizmente, aos 20 de novembro de 1695, depois da traição de seu comandante Antônio Soares, que, em troca da sua liberdade, delata o menino de outrora Francisco, foi torturado, tendo a sua cabeça decapitada e deposta em praça pública na cidade de Recife até a final decomposição, como se num ato simbólico demonstrasse à sociedade a fragilidade da sua “imortalidade”.
Contrariando o mito de herói de Zumbi, de acordo com alguns autores, o rei Ganga-Zumba ao pactuar com o governo da capitania de Pernambuco, Pedro de Almeida, assina a sua sentença de morte sendo envenenado por partidários de Zumbi. Esse pacto seria aceito pelo governo desde que os moradores do Quilombo se sujeitassem à coroa Portuguesa. Zumbi não satisfeito com a forma de governo do rei institui um grupo contra o seu tio. Para alguns historiadores, o “deus da Guerra” ou “Fantasma Imortal”, como alguns traduzem, não foi tão herói como se diz, mas um rei déspota que instituía até execução quando um escravo fugia do Quilombo. Nesse sentido, o sistema de escravos era muito parecido ao sistema branco de escravidão da Europa da Idade Média. No livro “História do Quilombo no Brasil”, organizado pelos professores-pesquisadores pós-doutores João José Reis e Flávio dos Santos Gomes, se evidencia a necessidade de se rever o mito de Palmares sob “novas perspectivas”. Para Reis, a historiografia construiu uma história pautada pelo heroísmo superdimensionado negligenciando contribuições importantes de Ganga-Zumba. Em convergência a essa ideia, Gomes acredita que houve uma supervalorização do Zumbi que o movimento negro se apropriou. De tal modo, essa foi a vida de Zumbi, cheia de lutas, agruras e contradições que o tornaram o “homem Imortal”. Opiniões à parte, sigamos em nossa reflexão em relação à inserção do negro e o contexto escolar.
Segundo dados do Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento (PNUD/2005), o Brasil se desenvolveu excluindo a população negra na medida em que não contemplou nesse processo a inserção do negro em relação ao branco na sociedade. Para Hédio Silva Junior em seu livro “Discriminação racial nas escolas: entre a lei e as práticas sociais-UNESCO, 2002”, o direito à educação para os não brancos (não pertencentes à elite) só viria no ano de 1971 com a lei 5.692 de 11 de agosto de 1971, ou seja, quase um século depois, começava a se pensar numa suposta democratização  que não foi acompanhada de uma preparação do magistério  para lidar com a heterogeneidade. Diante dessa constatação, leva-nos a crer que o nosso modelo de educação ainda é pautada por valores da “classe média branca” uma vez que o branco é (auto)representado como o modelo ideal que detém posição de privilégios legitimados durante séculos em relação ao negro.
Já a professora-pesquisadora pós-doutora Fúlvia Rosemberg em sua pesquisa “Raça e Educação inicial-1991”, afirma que as oportunidades de ensino para as crianças negras são ainda de pior qualidade, isto é, o pertencimento racial ainda é um fator excludente dos nossos alunos e alunas que anseiam desestruturar as desigualdades sociais e econômicas. Embora a pesquisa seja publicada no ano de 1991, ela converge com a opinião dada pelo professor titular da USP, doutor Kabengele Munanga em entrevista à Carta Capital no ano de 2012. Segundo ele, embora existam as leis 10.639 e 11.645 que tornam obrigatório o ensino da cultura, história dos povos indígenas e negros no Brasil, a nossa educação ainda é pautada pelo viés eurocêntrico, ou seja, a nossa educação é eurocêntrica, pois os docentes receberam uma educação também eurocêntrica. Dessa maneira, necessitamos formar educadores que abraçam a diversidade humana, para que assim, tenhamos um espaço que contribua para a sociedade menos preconceituosa.
Como educador, anseio que as nossas escolas não privilegiem somente o lugar e a voz do “branco” em que os matizes são negligenciados por causa de crenças e valores arraigados historicamente no hegemônico e no institucionalizado modelo branco, hetero(normativo) e  europeu. Não aceito que as vozes dos nossos alunos e alunas negros continuem sendo abafadas pela prática silenciosa da discriminação racial.  Para que essas práticas perversas não sejam aceitas pela sociedade, penso que é urgente o debate da escola em relação à hierarquização das identidades que legitima somente modelos privilegiados da sociedade, muitas vezes reiterados nos livros didáticos, na mídia, na publicidade, nas novelas, nas igrejas, por exemplo. Os estudos de África são debatidos sob que viés? Qual a intenção de (re)contar essa história sob prismas distintos  os nossos docentes têm?
A escola não pode favorecer uma identidade em detrimento de outra, esse definitivamente não é o seu papel. A instituição escolar como um lugar que perpetua e veicula a tradição não deve privilegiar uma religiosidade em relação à outra, pelo contrário, essa tradição deve ser questionada. Acredito que, em vez de alguns professores e gestores perpetuarem uma religião pautada pela ótica cristã, quer seja nos momentos de orações (o Estado não é laico?) e/ou nas aulas de ensino religioso, que possam promover a reflexão e a inserção também das outras religiosidades, sobretudo, as de matrizes africanas. Afinal, não vejo nas escolas que percorro a aceitação da religião diferente da cristã. Pelo contrário, ainda percebe-se que o negro é lembrado em sua cultura, história, religiosidade somente em datas pedagógicas. É nesse momento que o excêntrico torna-se o centro, somente nessa data. O que adianta o professor e a professora, o gestor ou a gestora abraçar a data da Consciência Negra, como um momento de “espetacularizar” a figura do negro nos murais e recintos escolares e excluí-lo das práticas sociais que circundam a lógica cotidiana escolar? Será que no dia a dia das nossas escolas trazemos a reflexão da religiosidade africana do ponto de vista que valoriza as ritualidades presentes nos terreiros? Será que se discute a importância de se questionar os significados negativos em relação à macumba, aos orixás e outras práticas diferentes do nosso ideal cristão? Penso que não, não se promovem as discussões, pois as pesquisas estão presentes em diferentes campos do saber para nos dar conta desses resultados.

Portanto, encerro essa escrita por ora, com o anseio de que o mês de novembro e a data 20 de novembro, dia da Consciência Negra não seja somente um momento pedagógico descontextualizado que, infelizmente, algumas escolas teimam em realizar ou que a sociedade supostamente abraça para ser politicamente correta. Ambiciono que se possa refletir na sociedade brasileira o que é a diversidade humana para que assim estejamos dispostos a desestabilizar o edifício do instituído como modelo “normal” que anseia colocar o outro no “esquadro”. Igualmente, espero que a coragem de Zumbi dos Palmares e de Ganga-Zumba espaja sobre todas as pessoas que ainda hierarquizam e subalternizam a diferença do outro em relação a si. Que possamos refletir sobre o momento de arbitrariedade e dificuldade que muitos da sociedade e do mundo têm em aceitar aquele que é diferente. Viva a Consciência Negra, viva Zumbi dos Palmares e Ganga-Zumba!