quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A educação está de luto no dia dos professores


Hoje, dia do professor, gostaria de parabenizá-lo pelo seu oficio. No entanto, na atual conjuntura, isso não é possível porque muitas coisas na educação não estão coerentes, não estão no lugar devido. O que move essa escrita é a indignação e a falta de respeito direcionado diariamente aos docentes sob diferentes maneiras. Essas formas direcionadas são simbólicas e silenciosas, que passam às vezes despercebidos pela maioria da sociedade. Assim, esse texto caro (a) leitor(a) tem um significado de protesto que representa as tantas vozes que tornaram-se emudecidas pela violência imputada a aos docentes. 
De acordo com o jornal Folha de São Paulo (Fábio Takahashi em 11/11/2011), os candidatos selecionados no último concurso tiveram uma média de desistência muito alta. Após dois meses de ingresso nesse concurso, a média de pedido de exoneração era de dois professores por dia. Em convergência a esse fato, dois anos depois, segundo a revista Veja (edição 01/09/13-seção Educação), a média de pedido de exoneração no estado de São Paulo entre os anos de 2008 a 2012 foram de 3000 professores por ano. Já a notícia veiculada pelo jornal O tempo (seção Cidades- publicado em 23/09/13), dão-nos conta de que a cada dia cinco professores concursados pedem demissão em Minas Gerais. Por que trago esses rápidos dados? Para pensarmos nesse dia do (a) professor (a) e refletir sobre essa desistência desses profissionais. O que tem feito esses profissionais abrirem mão do tão sonhado concurso público e a sua possibilidade de estabilidade?
Em tempos longínquos, a educação não era assim. O professor era célebre pelo saber que possuía. Pode-se afirmar que o momento de um suposto reconhecimento dessa profissão deu-se aproximadamente na década de 40, quando o seu salário e status poderia ser comparado ao de um juiz. Para as professoras e pesquisadoras Paula Perin Vicentini e Rosario Lugli, especialistas no tema e autoras do livro “História da Profissão Docente no Brasil: representações em disputa” não há concordância a esse status, pelo contrário, segundo as autoras, nunca ficou a evidência de que esse fato realmente existiu. Em décadas anteriores exigia-se desse profissional uma cultura ampla, pois era ensinada na escola (elitista, para poucos) arte, literatura, latim, francês, inglês, etc. Portanto, era uma escola que se fazia admissão para poucos terem acesso e serem treinados para cargos de liderança na sociedade. A escola pública ainda não era prioridade do Estado. Com o advento da industrialização no Brasil, foi necessária a criação de uma escola de massas, pública, que colocassem ‘operários’ mais letrados para uso das máquinas e das funções que se exigiam à época.
As fábricas, nesse sentido, foram importantes para construir o modelo de escola que temos: disciplinadora, reguladora, que dispõe em forma de grade o currículo e as disciplinas (note-se que disciplina é palavra de ordem reivindicada nos manicômios, presídios etc.). Nas fábricas e escolas ainda ecoa o som diário que sinaliza aos disciplinados a hora de recolher às atividades laboriosas. Pode-se afirmar que o processo de formação de professores também obedeceu às políticas de massas. Na medida em que se criaram diferentes polos e universidades, os cursos de licenciaturas ofertados tornaram-se ou pretendiam se constituir uma política pública (ineficiente) para que os professores já atuantes pudessem ter curso superior, uma vez que muitos ainda possuíam ensino magistério (técnico-Normal) ou até fundamental (basta ver o Norte e o Nordeste, por exemplo). Infelizmente, na medida em que foram criando mecanismos para que outros formassem professores, o nível da oferta e procura cresceu rapidamente sem se preocupar com a qualidade dessa formação. Muitos governos priorizavam estatísticas que validassem uma excelente formação de professores sem questionar como e qual o motivo formar professores. Portanto, a educação nesse molde da formação em série com o simples intuito de suturar feridas históricas acerca da falta de qualidade no ensino imputados aos profissionais da educação sem a escolaridade exigida , serviu para fazer com que muitos docentes fossem reconhecidos pelos governantes como meros profissionais que executam, cuidam, e cumpre o que é determinado via documentos determinados pelos gestores públicos. Nesse sentido, é possível afirmar que houve (ou ainda há) uma preocupação dos nossos governantes somente com os números e estatísticas, que não significavam nada quando se pensa em qualidade oferecida aos discentes pelo Brasil afora. Assim, a educação passou a ser enviesada pelos moldes neoliberais que transfere a responsabilidade para o mercado e/ou instituições privadas (na maioria instituições financeiras poderosas, atreladas ao discurso do investimento social) que ‘enlatam’ o que deve e pode ser ensinado em sala de aula. Para nós, esses mecanismos tornaram-se a materialização dos “inimigos da escola”, unidos a “Projetos Jovens sem Futuro”. Porque é isso o que acontece quando não se discute educação com quem entende de educação: negam direitos legais ao acesso e permanência de quem precisa da escola pública (de qualidade).
A lógica neoliberal tem uma grande contribuição para o cenário que se desenha em nosso Brasil no que tange à educação. Ao instituir fórmulas e metas exigidas pelo Banco Mundial (BM-poderio financeiro) estamos afundando a nossa educação. Para que se materialize esse “Pacto Pela Educação” que muitos governos têm adotado, as nossas escolas pelo Brasil se tornaram cotidianamente empresas, ou fábricas de diplomados. Então, nessa perversa lógica, vivencia-se diuturnamente a destituição de direitos sociais asseverados pela nossa Constituição Federal em seu artigo sexto. Assim, tem-se que os nossos discentes ao final de uma educação básica e, portanto, elementar, não poderão acessar outros ambientes que exigem uma educação que mune o indivíduo para transitar socialmente de forma cidadã em diversos espaços da cultura dominante. Muitos não conseguirão cursar uma universidade pública e logo, não será oportunizada a superação dos problemas sociais que assolam os nossos jovens. No discurso neoliberal, será valorizada a inserção dos nossos alunos e alunas nas IES privadas que recebem investimentos financeiros do governo federal. Ou seja, os nossos ‘despatriados sociais’ não têm a educação de qualidade porque podem pagar a faculdade com o trabalho ou com financiamentos supostamente acessíveis. Sabe-se que muitos exercem outras profissões pelo dia e estudam à noite. Para quem não tem condições de pagar o curso de graduação, financiam esse curso e ao terminá-lo começa a carreira devendo-o. Educação de qualidade? Não sabemos.
Nesse viés do neoliberalismo, as nossas escolas são transformadas em empresas. Temos o gerente, o supervisor (que controla o professor para governar a sua prática pedagógica) e ainda para somar-se a isso, se institui o mérito de assiduidade através de ‘bonificações’ que se assemelham aos mecanismos behavioristas de comportamento. (Quantos ratinhos não sofreram para serem treinados hein?). Vive-se nas empresas-escolas tempos de competição mercadológica entre alunos e alunas, professores e professoras e porque não, entre a melhor nota do Ideb X contra a escola do Ideb Y, o que pode se configurar em práticas discriminatórias entre as escolas e o alunado. Nesse sentido, com as ditas premiações dadas nesses contextos escolares, temos mecanismos de controle e governo oferecidos pela recompensa que se baseia no reforço, estímulo e resposta. Assim, para esses cumprimentos empresariais de metas de produção, para ser o ‘professor destaque do mês’, tem-se o preenchimento de relatórios, planilhas, fichas, gráficos etc. Faz-se acreditar em números como algo de verdade e os números numa sociedade cartesiana são ‘verdades’ construídas e forjadas sob a égide de interesses de alguns (quem será o favorecido?). Logo, Não existe neutralidade nesses números, estes podem mascarar o que bem seja conveniente.
    Então, como a sociedade pode pensar que a educação está bem se os números não são neutros? Já que podem ser engessados em testes que não traduzem a realidade da educação brasileira. De que maneira pode se exigir uma educação de qualidade se os governantes veem esses profissionais da educação como meros reprodutores de livros didáticos, quando não cartilhas e/ou fórmulas descontextualizadas da realidade de cada comunidade escolar? A capacidade de autonomia desse profissional está totalmente maculada porque para o neoliberalismo, é importante que o mercado regule quem deve permanecer nele e, embora muitos pregam que todos terão acesso de qualidade em cursos superiores, é uma falácia, porque as pesquisas afirmam que  muitos concluintes do Ensino Médio não se apropriam das devidas habilidades exigidas. Afinal, quem é o deus nesse modelo de educação neoliberal? O mercado. Para o Estado é deixada as suas obrigações para se pactuar (pacto é outra palavra de ordem do neoliberalismo) com as instituições financeiras que regulam modelos de ensino a serem aplicados. Ora, se se precisa de pessoas diplomadas para atuar nas ‘fábricas’ como bem quer a classe dominante, não é coerente termos uma educação emancipadora que agencie a cidadania. Com a educação que se delineia na atualidade, têm-se alunos e alunas automatizados e por isso, ensinados a não pensar. Da mesma forma que robôs, apenas repetem e copiam o que é exigido como ‘metas de uma boa educação’ ou como “pacto” como alguns queiram chamar. Parece-nos que o círculo vicioso continua. Basta observarmos que a escola da contemporaneidade configura numa espaço fabril de ‘operários’ e “desfiliados sociais” que são violentados em seus direitos sociais e por isso são excluídos socialmente.
    Afinal, nessa imposição neoliberal de educação é necessário que os nossos discentes saibam lidar cada vez mais com aparatos tecnológicos nas indústrias e ‘fábricas’. Ensinar a pensar torna-se uma prática cada vez mais insossa em nossos ambientes escolares, porque com a rapidez e urgência que se faz a educação-empresa, não se faz importante pensar sobre os processos que permeiam uma sociedade complexa. Assim, muitos de nossos alunos e alunas no Brasil só repetem, memorizam, copiam, esquecem. Exceto aprendem, apropriam, transformam, questionam. São tidos como robôs, não sabem nada além do programado. E quem ganha com isso? Os donos do poder que querem explorar esses ‘diplomados da incompetência’. Essa é a educação que nós professores sonhamos ao cursarmos uma graduação? Tenho certeza que não.
Como educadores não estamos satisfeitos com tudo que tem se delineado na educação pública. A nossa reivindicação não pode ser algo à parte, de classe. A sociedade, sobretudo a civil, tem de perceber que sem a educação de qualidade e sem bons profissionais respeitados com um plano de carreia adequado, sem estrutura nas escolas, não se pode querer outra coisa a não ser a barbárie. Por falar em plano de carreira, outra prática perversa do neoliberalismo é incorporar gratificações ao piso do professor para cumprimento da lei 11.738/2008. Assim, nessa suposta ‘valorização da carreira docente’ fica uma mensagem para todos: de que não vale a pena investir em educação. No discurso proferido por alguns governantes de que a educação é ‘meta’ de qualidade torna-se incoerente e, por isso contraditório pois o profissional bem remunerado e com um plano de carreira adequado permanece na rede pública. O discurso é tão contraditório, por exemplo, em relação ao professor (a) investir em estudos de ‘qualificação’ porque a esse profissional é negado o direito de cursar mestrado e doutorado com a sua licença remunerada de direito em diversas esferas estaduais (criam-se mecanismos para essa formação continuada e impede o acesso a ela negando as licenças de aprimoramento profissional). Percebam que, qualificar é um verbo incorporado pela ordem neoliberal- o sujeito na atualidade, na medida em que incorpora esse discurso, à sua prática profissional, nunca estará devidamente qualificado porque o mercado impõe sempre essa suposta qualificação para justificar as vacâncias de profissionais nos serviços públicos e/ou privados ofertados.
A sociedade, ao achar que pelo fato de pagar as escolas privadas (caras) aos seus filhos e não exigir uma educação pública de qualidade está livre do caos que se instaura na atualidade no Brasil, equivoca-se, porque como ficou muito clara e concisa a reflexão de Fernando Garcez (DM- seção Especial para o Diário da Manhã em 08/10/13), “mesmo que seu filho(a), leitor, não estude na escola pública, isso recai sobre você de duas formas: 1) o dinheiro do imposto é mal aproveitado; 2) induz as escolas particulares a aumentar o valor das mensalidades. Além do impacto financeiro, a questão social requer ser considerada”. Isto é, todos e todas devem exigir dos poderes públicos qualidade na educação e um plano de carreira coerente que permaneça o já efetivo servidor e busque alternativas de atração dos melhores cérebros para as futuras gerações nas escolas públicas, sem deixar de mencionar a importância de se oferecer as devidas estruturas físicas e didático-pedagógicas para esses profissionais atuem.
Igualmente, estamos de luto pela educação. Exigimos nesse dia do professor respeito como profissionais que contribuem em parte para a cidadania e emancipação humana. Pedimos que a sociedade deixe de construir significados vitimizadores acerca de nós. Não somos coitadinhos e nem queremos ser, somos professores e como qualquer profissional de curso superior, queremos salários e condições dignas de permanência na carreira do magistério. Almejamos a valorização devida. Reivindicamos o direito de estudar em formação avançada e ter acesso a uma carreira decente e não indecente. Não somos e nem pretendemos ser missionários que vivem de amor. Podemos amar e cuidar sem sermos pai e mãe de alguém. Não somos e nem queremos ser a extensão do afeto de ninguém. Não vivemos de filantropia em nossa profissão como bem tem ensinado as lógicas neoliberais nos “amigos da escola”. Não somos e nem queremos ser os redentores de uma educação falida, mentirosa e conspurcada pelos números. Os números mentem e não são verdadeiros porque a ‘verdade’ nasce em tempo e lugar histórico e por isso ela é ideológica. Não somos tios, somos profissionais e queremos que deixe de culpabilizar o fracasso escolar mascarado pelos números em função da atuação docente. A culpa não é do professor, a culpa é de quem mente e omite sobre a educação. A culpa é de quem é conivente com a hipocrisia e com o elitismo. A culpa é de quem valoriza a sociedade de classe e impede o acesso ao outro de transformar a sua vida a partir de mecanismos igualitários. A escola e nem os professores são responsáveis pelas mazelas do mundo.  Precisamos pagar as nossas contas, investir em cultura, formação continuada, comprar livros etc. Não vivemos de ‘premiações’. Desejamos viver com o que é de nosso direito, direito esse conquistado pelos estudos que angariamos.  

Portanto, queremos que a profissão docente seja vista como algo de prestígio social. Aspiramos que os nossos discentes ambicionem ser professores, mas, para isso, são necessárias as políticas públicas que atraem os grandes cérebros. Assim sendo, fazemos um apelo à sociedade: exija a educação e a valorização de bons profissionais para os seus filhos. Bons profissionais precisam ter salários atraentes e oportunidade de avançar os seus estudos acadêmicos (sem serem punidos) para permanecer na rede básica de educação. A todos e todas pedimos que não se contentem com uma educação qualquer. Queiram que as próximas gerações possam abrir novas janelas na vida através dos estudos de qualidade porque se não for feito nada por parte dos governantes e de toda a sociedade organizada, muitos terão de se contentar com o que já se evidencia nos quadros das nossas escolas públicas: a desistência do professor altamente preparado. Luto na educação!   
Texto publicado no jornal Diário da Manhã em 15/10/13 Disponível em: <http://www.dm.com.br/jornal/index#!/view?e=20131015&p=24>

terça-feira, 10 de setembro de 2013

“Holocausto Brasileiro”: um tributo às vítimas da razão


             As instituições sociais em diferentes contextos podem regular a vida de muitos a partir do controle de seus corpos, dos seus dizeres, dos seus saberes e dos seus fazeres. As técnicas para esse controle dão-se de forma que às vezes passa despercebido pela maioria da parcela da sociedade porque são simbólicos e/ou escondidos do público. Assim, para pensar esse domínio, questionamos de que forma podemos tornar invisíveis os nossos semelhantes a partir de técnicas que impõe uma (a)normalidade?  Legitimar um lugar social tido como “normal”, não seria excluir o lugar do outro considerado como o não normal?
A loucura é algo que mexe com a ‘razão’ desde há muitos anos. Sob diferentes compreensões e posições de saberes, percebemos que esta foi objeto de misticismo e controle. Para que pudesse existir no discurso do confinamento e da cura foi necessária a interdição de uma doença que, desde muito tempo, foi entendida como maldição e sinônimo de exclusão: a “lepra”.  De acordo com Foucault em “A História da Loucura na Idade Clássica”, ao final da Idade Média, início do século XV, o objeto de confinamento e controle torna-se vazio porque a figura do “leproso” desaparece.  Para o pensador francês, a loucura passa a ser o objeto de fascínio e atração para o homem ocidental a partir do final do século XV. Isto é, a loucura, segundo nos adverte o francês não é somente algo ligado a assombrações e aos mistérios do mundo, mas, alguma coisa com uma estreita relação do homem consigo mesmo, seja através de seus sonhos, ilusões e fraquezas. A “lepra” como algo não atraente, e por isso, ‘maldita’ (pela Igreja), tinha de morrer e deixar de ser policiada (e existir) no discurso para emergir outros fascínios úteis para o confinamento.
Em meados do século XVII a loucura passa a ser ligada com o confinamento, já que antes disso, no século XVI, a loucura era somente objeto de reflexão crítica. Deste modo, a loucura passa a ser compreendida somente em relação à razão, como referência de recusa em que uma fundamenta a outra. Contudo, esse confinamento não se dá pelo discurso de poder médico de cura (que nascerá no século XIX), mas, pelo poder dado pelo semijurídico que, além dos tribunais, julga e executa esse confinamento. Assim, seguindo as rotas foucaultianas, percebemos que o louco antes tido como algo sagrado pela Idade Média passa a ser algo passível de exclusão, uma vez que o Estado substitui a Igreja. A miséria do louco era tida como algo místico pela caridade medieval da Igreja porque este participava dos obscuros poderes da miséria. Podemos inferir que o louco personificado na miséria deixa de ser místico e transforma-se em obstáculo para o ‘progresso’ do Estado. Portanto, a experiência do louco é deixada pela santificação (da Igreja) e passa a ser uma concepção moral condenável.
O internamento no século XVIII começa a estar em crise porque não está ligado ao econômico e social. No final do século XVIII a internação como foi proposta nos séculos XVII não era válida e por isso era posta em questionamento. Para as estruturas econômicas que estavam emergindo (com o nascimento da indústria) esse ‘pobre’ e ‘louco’ tinha de ser jogado à sociedade. Ou seja, como mão de obra barata não podia estar à margem. Logo, para a produção de riquezas esses pobres internados seriam importantes para o progresso das nações. Assim, não seria eficaz a internação da população pobre, porque essa população deveria estar em convívio nos espaços sociais (produzindo lucros).  Nesse sentido, a pobreza deveria ser colocada à disposição da sociedade através da liberação do internamento. O que compreendemos até aqui é que os discursos proferidos por instituições de poder podem regular a vida de quem permanece no público e no privado. Nesse momento do século XVIII os pobres são necessários, por isso estão no espaço público, porque são produtivos. No século XIX, os pobres e os demais desajustados (fora da norma e do esquadro) retornam ao privado porque são úteis para a produção de mão de obra em alguns hospitais psiquiátricos (note-se, por exemplo, que muitos pacientes foram explorados nos canteiros de plantação de hortaliças. O que produziam era vendido para o lado de fora. Algumas instituições psiquiátricas exploravam a força muscular desses internos em lugar da obtenção de lucros).
No Brasil, seguindo as rotas de Sérgio Rachman, em sua pesquisa “A interface entre a psiquiatria e a literatura na obra de Lima Barreto”, entendemos que até a metade do século XIX os doentes mentais eram internados na Santa Casa de Misericórdia. Devido às condições precárias vividas pelos alienados, foi construído o primeiro hospital psiquiátrico, o Hospital Psiquiátrico D. Pedro II, passado após, a chamar Hospital Nacional de Alienados (HNA). Claro, o modelo de internação seguia os moldes da psiquiatria positivista. Do mesmo modo, podemos depreender a partir de “Os anormais”, de Michel Foucault, que o discurso médico psiquiátrico teve grande importância para confinar quem era tido como fora da norma e por isso “anormal”. Isto é, o discurso médico-psiquiátrico tinha (ou tem?) o poder de “vida e de morte” que desqualifica os sujeitos impondo uma vida fora do convívio social. De tal modo, o discurso de verdade proferido a partir de uma ‘verdade’ cientificista, legitimado por instituições e especialistas dá lugar adequado para uns e excluem outros, policiando a vida dos humanos.
Após percorrermos alguns caminhos com Michel Foucault sobre a história da loucura, sugiro uma parada nesse “trem de doido”, em um dos ambientes sufocantes no Brasil do século XX para problematizarmos sobre a violência naturalizada entre algumas instituições em relação ao insano, o louco, o “anormal”. Esse ambiente psiquiátrico chamado de Colônia será o acicate para a nossa reflexão. Talvez por ter sido considerado o lugar do genocídio no Brasil que poucos tiveram notícia, como bem confirma Daniela Arbex em “Holocausto brasileiro-genocídio: 60 mil mortos no maior hospício no Brasil”. Após a leitura desse fantástico livro, percebemos que essa instituição psiquiátrica não difere de outros recintos que veiculam poderes disciplinares e que ainda causam a morte – física, moral, social de inúmeros cidadãos pelo Brasil afora e que são capitais para apagar e violentar as suas vidas e memórias.
O Colônia, segundo Arbex,  era o local que padronizava as pessoas com os seus uniformes azuis e  que era temido pelos internos o “azulão”. Talvez porque eram colocados em situação de guerra os internos que tinham as suas cabeças raspadas como prisioneiros. Essa prática simbólica da raspagem da cabeça e do uso do uniforme “azulão” em nosso entendimento funcionam como dispositivos de invisibilidade social para quem adentra os portões de uma instituição que dita uma igualdade a todos a partir do tom azul do uniforme. A partir dessa ‘igualdade’ todos são os ‘sem nomes’ que se tornaram números, “monstros” excluídos do sistema “normal” e racional. Se a função de um hospital psiquiátrico para o leigo é cuidar, ‘curar’ a loucura e as demais doenças mentais, não foi bem o que ocorreu ao longo da implementação.
Nesses “cemitérios de vivos” (como chamava Lima Barreto os hospitais psiquiátricos) os sofrimentos impingidos aos destituídos sociais (‘doentes mentais’, epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas ou qualquer pessoa incômoda para alguém detentor de poder e prestígio social) eram autorizados pelo sistema que, cada vez mais queria higienizar a sociedade através do confinamento. Aliás, os muros dessas instituições trazem algo de simbólico para pensarmos: não se pode ultrapassar esse espaço. Para atravessá-lo, alguém deve possuir credenciais que sinalizam o ser “normal” em sociedade. Ou seja, o que se percebe a partir disso é que num passado não muito distante as instituições exerceram o poder disciplinar que controlou e apagou aos poucos a vida de pessoas transformando-as em anônimas e objetos do descaso.
Esse descaso nos faz lembrar Lima Barreto ao ser internado no HNA e relatado em seu “Diário Íntimo”. É fato que ao adentrar os portões dessas instituições as pessoas deixariam de ser gente para serem feras, bichos que comem bosta e andam nus (ARBEX, 2013). Do mesmo modo, essas instituições ao longo de suas práticas trabalharam para fabricar corpos que seriam dóceis e disciplinados. E para isso, a medicalização, os eletrochoques, os banhos gelados fariam parte do cotidiano de quem ousasse gritar e protestar contra esse poder. Nesse sentido, como o Estado permitiu a morte diária (banalizada) de pessoas nessas instituições? Como, por exemplo, no Colônia, que tinha uma média de dezesseis mortes por dia e  que esses mortos eram objeto de lucros de pessoas ambiciosas. Ora, como não saber que nesse ambiente de horror havia homens esquálidos e totalmente nus, espalhados aos montes de capim que bebiam água de esgoto para saciar a sede? Então, tudo isso leva-nos a pensar em uma chacina institucional perversa que mata social e moralmente quem não é a regra, o modelo, o “normal” daquilo que a sociedade aceita e legitima como tal.
Se como a morte de tanta gente insurgia um mercado lucrativo que a comercializava corpos e ossos, é possível pensar que muitos obtiveram ganhos a partir dessa prática perversa e desumana. Como bem se evidencia em Arbex, um mercado lucrativo tem de ser autorizado por instituições de poder. E segundo a jornalista, duas dessas instituições foram importantes Universidades Federais que contribuíram para esse ‘comércio da morte’ em que corpos foram comprados (cerca de mil oitocentos e vinte e três), entre os anos de 1969 e 1980. No entanto, com a morte de tantos, o mercado saturou com a abundante morte dos “anormais”, possibilitando outras margens de lucros com a miséria humana através da decomposição de corpos em toneis de ácido porque os ossos tornariam lucrativos.
Se, de acordo com dados levantados no “livro-reportagem”, a estimativa era de que 70% dos atendidos não apresentavam doença mental e que bastava sintoma de tristeza ou uma suposta ameaça à ‘ordem das coisas’ para ser um viajante do “trem de doido”, porque era tão alta a exclusão da família em relação aos seus? Por que a negligência e a dificuldade em aceitar o diferente daquilo que a sociedade e as instituições atestam como aceito? Por acaso essa lógica perversa de higiene ainda não impera nos dias hodiernos? Será que hoje num discurso ressignificado o Estado e outras instituições não permitem distintas formas de institucionalização da miséria como prática desumana? Basta que percebamos quem são aqueles e aquelas que não queremos ver nos espaços públicos na atualidade.
Parece-nos que na contemporaneidade a história se reitera em supostos discursos de cura e inclusão a partir dos novos proscritos que não mais “leprosos” e loucos como nos advogou Foucault, mas, novos “anormais” que merecem ser diagnosticados e tratados. Hoje, por exemplo, sob nova roupagem discursiva queremos ‘tratar’ dos usuários de crack ou “craqueiros” guardando-os, ou melhor, retirando-os do convívio do público para não ‘enfeiar’ a sociedade. Isto é, a sociedade ainda está pautada pelas teorias higienistas e amparada pela ‘pura’ intenção de limpar a ‘sujeira’ colocando debaixo dos tapetes (dos espaços privados) aquilo que não é adequado. A nova ordem seria novos fabricos e assujeitamentos de corpos “anormais” para o Estado? Se no passado não muito remoto, tivemos como “monstros” os epiléticos, as prostitutas, os homossexuais, as esposas insubmissas, as meninas grávidas, hoje os “drogados” têm como destino a internação compulsória? Parece plausível pensar que, sem o diálogo aberto de diferentes instituições, o silêncio dos “anormais” sob a ótica da “normalidade” faz com que as vozes sejam abafadas pelo sistema patologizador que negligenciam direitos e atestam outras vítimas da instituicionalização.
Deste modo, alguns desses sujeitos se constituíram e se constituem rebelando-se contra o sistema frio que o Estado impôs para quem vive fora da norma. Muitos almejaram e almejam existir dentro de suas diversidades, sem serem obrigados a viver no esquadro, na ‘retidão’ que padroniza uns a partir de referência atestada por outros. Ainda hoje, muitos homens, mulheres e crianças deixam de existir como gente, para ser propriedade do Estado, sob o nosso aval (muitos de nós concordamos porque não queremos responsabilidades ou pensar sobre elas). O “Holocausto Brasileiro” se corporifica em ‘terras da razão’ de diversas maneiras. Muitos são mortos diariamente por nossas empáfias em espaços privados que poucos têm acesso. Esses ‘mortos’ são teimosos em reivindicar o espaço público como um lugar de existência que os reconhecem. Assim, o que tenho a reivindicar é um respeitável tributo para os que são categorizados e patologizados pelas normas como aberrações, “anormais”, loucos, estranhos, diferentes. 
Artigo publicado no jornal Diário da Manhã em 06 setembro de 2013
http://www.dm.com.br/jornal/index#!/view?e=20130906&p=20

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A suposta “cura gay” e as normas




É possível haver uma “cura gay”? Por acaso não se cogita a cura a partir de algo que está doente? Quais são as credenciais dadas que atestam o poder de cura da sexualidade do ‘outro’? São perguntas que ressoam e inquietam-me diante do Projeto de Lei do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), reflexo de outras tentativas como a do deputado federal João Campos (PSDB-GO) e da psicóloga paranaense Marisa Lobo. Essas tentativas equivocadas e fanáticas acicatam essa escrita, cujo objetivo é contestar e desestabilizar os conceitos de norma(lidade) e de heteronormatividade presentes na sociedade . Para isso, acho relevante nos caminhos desse texto, demonstrar de forma breve, como a igreja e outras instituições são capitais para a legitimação sexual do que é aceito e tido como “normal”, capazes de promover uma subalternização do que é recusado e tido como “anormal”. Para compreendermos como algumas práticas sociais se configuram ao longo do tempo histórico e do espaço através de atitudes discriminatórias, precisamos retroceder a alguns séculos. Para isso, começamos pela construção do “sodomita pecador” (século XVIII) e em seguida para a construção de um homossexual patologizado (século XIX) em convergência com a contemporaneidade.
Antes da figura do sujeito homossexual, temos o sodomita categorizado pela igreja como aquele que carregava o pecado e a mácula na alma porque estava adequado a uma sexualidade antinatural que contrariava a natureza. Esse indivíduo era considerado o transgressor da matriz nuclear da procriação. O “crescei e multiplicai-vos” era subvertido na medida em que não se tinha o sexo como reprodução e perpetuação da espécie. Para a igreja essa prática subversiva foi considerada uma afronta moral que fora satanizada e controlada. Nota-se que o sexo era feito somente para cunho da reprodução e o sodomita tornava-se um transgressor porque ia além da imposição clerical, uma vez que buscava o prazer sexual.  Por isso, esse ‘pecador’ era o que tinha a sexualidade descrita, vigiada, normatizada, regulada, demonizada (pela igreja, e família). Novos dizeres foram criados sobre esse comportamento “estranho” à ordem natural e algumas famílias em desespero deixaram os seus filhos serem ‘tratados’ pela igreja através de orações, penitências e expurgo de demônios.
Nesse interim, avançando os séculos, precisamente XIX, quem passa a governar, higienizar e punir a sexualidade é o Estado e as Ciências Médicas, corporificada, sobretudo, na Psiquiatria e Psicanálise.  De acordo com o francês Michel Foucault em seus estudos sobre a sexualidade, especialmente no primeiro volume da “História da sexualidade” e em “Os Anormais”, o sujeito homossexual é algo inventado no século XIX e que nasce discursivamente através das instituições de poder como a psiquiatria. Para Foucault, a partir da publicação do artigo Archiv für psychiatrie und nervenkrankheiten (Arquivo para doenças nervosas e psiquiatria), de autoria do psiquiatra Carl Wetsphal em 1870, materializa-se um sujeito que passa a ter a sua sexualidade regulada e controlada pelos “juízes” (psiquiatras numa concepção foucaultiana) detentores do poder e saber. Nesse sentido, os “juízes” sentenciavam suas teorias e categorizavam o ‘outro’ como aquele detentor de uma sexualidade doente que necessitava tratamento. Nesse contexto, o discurso médico-legal amparado pela suposta ciência reiterava teorias capazes de atrocidades impensáveis, como por exemplo, extirpar os testículos dos “desviantes”, ou, o uso de eletrochoques nos hospitais psiquiátricos.
Acreditava-se que havia uma ‘falha’ hormonal nos testículos capaz de influenciar na sexualidade, cuja causa favorecia o surgimento do homossexual (por isso, esse termo relacionava ao discurso médico para categorizar o doente da sexualidade desviante). Podemos dizer que era o momento da caça às bruxas, pois quem fosse pego sofreria a dor de ter sido contraventor da ‘masculinidade’ obrigatória. Havia um policiamento do sexo e de tudo aquilo que o lembrava. As famílias tinham a ‘missão’ de controlar, vigiar os seus filhos para detectar possíveis desequilíbrios no comportamento. Se a homossexualidade fosse detectada pelo Estado no núcleo familiar os pais eram condenados. A sentença seria dada de acordo com a gravidade e intensidade desse comportamento que, antes sodomita, regulado pela igreja (comportamento pecaminoso e antinatural), agora “desviante” e “anormal” (gerido pelo discurso médico o comportamento doentio).
As condenações variavam desde o pagamento de multas para o Estado ao confisco dos bens. Cria que a família era também portadora de ‘algum erro’ capaz de mudar a sexualidade do filho. Nesse caso, perdia-se tudo e algumas famílias abastadas ‘sepultavam’ os seus pupilos em clínicas psiquiátricas, numa tentativa higienista, capaz de limpar da sociedade os “anormais”. Isto é, os “monstros humanos” criados pelas instituições médicas e jurídicas (O Direito também exerceu o poder para regular qual sexualidade deveria ser aceita e tida como “normal”). Portanto, podemos afirmar que o termo homossexual estava marcado por uma prática sexual totalmente demonizada advindo do século XVIII que se entrelaçava ao discurso sexológico, médico-legal, psiquiátrico e higienista, sendo parte constituinte de um discurso patologizador no século XIX até na atualidade. Diante disso, indago: Quantos “anormais” temos hoje nas clínicas psiquiátricas? Parece que novos “anormais” são (re)construídos pela linguagem como aqueles que não podem ser aceitos (vistos) no espaço público e por isso, devem ficar resguardados (no espaço privado) longe do convívio ‘humano’.
Transitando pela contemporaneidade, percebemos que alguns discursos reverberam na tentativa de construir um sujeito doente, pecaminoso e por isso, deve ser tratado e/ou expurgado. Daniel Borrillo, professor da Universidade de Paris, em seu livro “Homofobia - História e crítica de um preconceito” confirma que a tentativa de cura dos “homossexuais” é algo antigo e que corporifica uma homofobia social e institucional na sociedade marcada pela heterormatividade.  Dessa maneira, nos faz refletir que, ao patologizar uma identidade sexual a partir de uma norma e um modelo, negligencia-se os direitos de outros. Institui uma prática perversa de ajustamento que favorece uma homofobia aceita e por isso torna-se naturalizada. Promover uma suposta “cura gay” a partir de normativas é deixar que o Estado valide a homofobia social e isso é um recrudescimento da violência a partir da condição sexual que fere a Constituição Federal ( CF) e os Direitos Humanos. Deste modo, quando queremos usar da norma, num sentido de esquadro, como nos esclarece George Canguilhem em “O normal e o patológico”, dizemos quem é o aceito, o “normal”. O reconhecido é como se fosse algo que deve ser nem para a esquerda e nem para a direita, mas a justaposição do ajustado e do centro. Tudo que não for ajustado para o ‘correto’ e esquadrado será “anormal”. Assim, ao pensarmos nesse mascaramento perverso e violento que se estabelece através da linguagem, colocamos uns como superiores e outros como subalternizados e por isso, devem ser excluídos.
Ao refletirmos nessa normatização da sexualidade, percebemos que a sociedade é marcada pela “heterossexualidade compulsória” como afirma a pesquisadora Judith Butler. Uma das contribuições da sua teoria é a possibilidade de descontruir a matriz binária de homem versus mulher e a possibilidade de problematizarmos a sexualidade do ponto de vista da construção social e discursiva como algo que construímos aos outros e a nós mesmos através de discursos. O que problematizo aqui não é a questão da heterossexualidade ser compreendida como algo natural, mas a maneira que esta é (re)produzida e reiterada como modelo e  norma na sociedade. Assim, convém pensar em como as decisões políticas, sociais seguem essa matriz como princípio da normalidade? Por que queremos nos apropriar do sexo dos outros?  Para controlá-los, discipliná-los e governá-los? Foucault deixa-nos claro que o sexo não foi algo reprimido como se sugere, mas, que foi dito e produzido sob diferentes maneiras em distintos tempos históricos.
A escola, a família, a igreja, o Estado, ou seja, entendidas como instituições, regulam através de seus ritos de norma a sexualidade alheia. Na medida em que constrói na sociedade o padrão, quem é a referência, recusamos quem não é o modelo, o esquadro. Passamos a reconhecer o ‘outro’ como forasteiros e criamos sujeitos destituídos de direitos que são subalternizados por suas condições sexuais. Ora, querer a “cura” da condição sexual do outro, é partir da premissa que existe uma matriz única dada pela natureza. Instituir uma suposta “cura” e/ou correção é violentar o humano porque é desumano. Como bem se posicionou o Conselho Federal de Psicologia (CFP), essa proposta de “cura gay” é um retrocesso à resolução de nº 001/99 de 22 de março de 1999, uma vez que a resolução considera que a “homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”. Por falar em perversão, esta é uma herança freudiana que construiu o sujeito homoerótico como o “pervertido”.
Acho importante a problematização da sexualidade como algo cultural, (re)construído a partir de diferentes lugares históricos (sociais)  e institucionais. A sexualidade não é algo que devemos categorizar, compartimentar como se fosse uma massa moldável e limitada, “a sexualidade livre é a morte que ressurge para a vida”. Arrisco a dizer que a tentativa em rotular os outros em lésbicas, heterossexuais, homossexuais, travestis, transexuais (que ainda são vistas como seres patologizados que carecem do aval psiquiátrico para existir socialmente) torna-se inútil, uma vez que estudos sob distintos olhares revelam a plasticidade da sexualidade humana, sendo impossível demarcar a partir da matriz binária homem e mulher, os jeitos de ser homem e ser mulher, tendo em vista que há vários jeitos de se viver a masculinidade e a feminilidade que nascem em diferentes momentos históricos e sociais. Por conseguinte, infelizmente tenho acompanhado em redes sociais uma heteronormatização da sexualidade imposta de forma violenta. Isso reflete de certa forma o desrespeito à diversidade humana, ao convívio entre a diferença e ao reconhecimento da alteridade. Tenho lido também na opinião de alguns psiquiatras, psicanalistas e psicólogos (Silas Malafaia e Marisa Lobo) ecos do século XVIII e XIX que demarcam uma sexualidade “normal” e invisibiliza uma sexualidade tida como “anormal”. Essas práticas são perigosas, porque patologiza, psicanaliza e psicologiza, ferindo o direito da dignidade humana defendido no artigo primeiro da Constituição Federal.
Vivemos tempos em que as dúvidas e as certezas dadas devem ser questionadas. É tempo de desestabilizar o que foi instituído como verdade, porque quem acredita detentor dela limita e excluem as outras possibilidades. O tempo da contemporaneidade nos possibilita descontruir o tradicional e questionar as instituições dadas como naturais. Precisamos propor novas formas de pensar a sociedade que vivemos, pois novos arranjos sociais se materializam e disso não podemos nos furtar. Afinal, o conceito de família nuclear já não responde o mosaico que nos imbricamos nesses tempos atuais.

Portanto, tenho certeza que existem coisas mais importantes em vez de supostamente incitar a “cura” das práticas afetivo-sexuais do cidadão. Temos os hospitais que estão cada vez mais sucateados que promovem diariamente aos pacientes uma morte social. Temos docentes, alunos e alunas reféns de uma educação caótica somada a inúmeros problemas sociais a serem vencidos. Pensemos um pouco e notaremos que o salário dos deputados e de toda engrenagem social é custeada através do pagamento de impostos. Quem paga são os cidadãos homens e mulheres, lésbicas, gays, travestis, transexuais e heterossexuais. Assim, ao proporem a “cura gay”, sugiro a cura da hipocrisia, da arrogância, da estupidez, da corrupção, da falta de respeito ao outro, da falta de urbanidade que permeiam as nossas instituições e relações, porque assim como Foucault, eu me recuso a aceitar que um indivíduo possa ser identificado com e através de sua sexualidade para ser normatizado.


Texto publicado no jornal Diário da Manhã no dia 02/07/13
http://www.dm.com.br/jornal/#!/view?e=20130702&p=24

terça-feira, 11 de junho de 2013




Diante da reportagem do Bom dia Brasil (10/06/13 http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/06/alexandre-garcia-professores-tem-motivos-para-se-afastar-da-escola.html) a respeito das licenças médicas de professores, penso que, tão logo, quero ser o próximo a não ser afastado de licença, mas, sair do serviço público da educação básica. Dificilmente um excelente professor, dessa nova geração, vai se assujeitar à barbárie e ao salário de alguns reais e às violências que são instituídas de diferentes matizes nessa instituição secular. Sou pessimista quando à tela que está sendo expressa na educação brasileira. Vejo como nas artes Expressionistas rostos deformados de professores, de alunos e alunas, do corpo administrativo que cada vez mais se transformam em 'Empresa Empreendedora’. Professores (alguns) não querem deixar o pedestal de, ora vítimas, ora vilões que a sociedade tem construídos através de diferentes discursos que se entrecruzam no tempo e na história. Vejo o caos e a barbárie como marcas presentes em nossa contemporaneidade líquida. Professores não se sentem como referência social (porque nem os ditos "piores alunos" anseiam essa profissão). Alunos e alunas sonham em cursar profissões que a elite tem como meta, mas, que nem se quer possuem letramentos múltiplos para enveredar por caminhos acadêmicos. Não leem o mundo que os cercam e não transformam , só repetem, memorizam como a escola ensinou há muito. Pesquisas? Nem pensar... E nós, professores, continuamos a diplomar a incompetência assim como fizeram com alguns de nós (professores) em diferentes programas de formação de professores no Brasil afora, dando-nos um diploma que certifica para alguns, uma profissão somente que executa o que é imposto. Basta vermos os Cadernos Educacionais que usam como fonte de consulta a Wikipédia em seus textos, total descaso e calamidade. E os professores, que oram reclamam do sistema, não se unem para ir ao Ministério Público saber o porquê de tais livros chegarem somente para os professores e professoras. E os alunos e alunas não acessarem esses 'compêndios da mediocridade' e ainda aceitar tudo como robôs que obedecem. É tão complexo pensar a educação porque muito de nós, por pagar as escolas dos nossos filhos, pensamos que estamos isentos do fracasso do proletariado. Claro que não. Pagamos as escolas no intuito do chamado discurso de vencedores que somos obrigados a internalizar, na esperança de acessarmos a elite brasileira. No entanto, queremos lugares melhores e , como profissionais (alguns), reiteramos discursos elitistas que segregam, excluem, avaliam e categorizam os 'outros'. Ouço categorizações diárias que combato, observo uma escola segregacionista e excludente porque vejo professores e alunos excludentes. Não queremos refletir tanto, porque a reflexão nos causa dor e nos faz sair da zona de conforto e assim, deixamos que o "sempre assim" se materialize dando uma significância de natural nas relações sociais. Desculpem o desabafo, ainda estou de luto pela educação e não digeri a perda que estamos sofrendo juntamente à  violência  imposta a nós professores e professoras, alunos e  alunas...

sexta-feira, 17 de maio de 2013




Fobias institucionalizadas: os estrangeiros das sexualidades “anormais”...  

Hoje, dezessete de maio de 2013, não gostaria de escrever sobre algo que me angustia e enoja: a homofobia. Tomo aqui nessa reflexão a homofobia como uma manifestação arbitrária e violenta que perpassa a noção de “fobia” dos postulados freudianos. Compreendo essa manifestação como uma prática perversa que subalterniza o ‘outro’ como inferior e destitui de direitos e deveres esse ‘outro’ no país/mundo/lugar que vive. Na medida em que as sexualidades tornam-se evidências, ainda que seja de maneira equivocada nos diferentes veículos midiáticos, a brutal violência materializa como um exterminador da sua insatisfação com as diversidades. Como uma atitude higienista, exterminar e limpar são palavras de ordem em uma sociedade centrada pelo machismo, sexismo, homofobia, patriarcalismo e consumismo. Pensar nessa homofobia parece limitado porque se esquece das diferentes formas de afetividade que movimentam a sexualidade humana. Nesse sentido, institucionaliza uma prática social como única variante, e deixa de mencionar outras manifestações de violência em relação àquele (a) não detentor da heterossexualidade obrigatória ou da “sexualidade monstruosa” numa concepção foucaultiana. Assim, temos as lésbicas (lesbofobia), as travestis, transexuais e transgêner@s (transfobia). Esquece-se, por exemplo, que vivemos tempos das ‘fobias institucionalizadas’, em que um coletivo acha natural inferiorizar o ‘estrangeiro’ da sexualidade normativo-obrigatória. Ou seja, torna-se cotidiano em diferentes espaços excluir o que caminha em direção às fronteiras, em direção contrária à norma ou ao esquadro. A escola, como uma instituição favorece essa ‘institucionalização das fobias’, na medida em que negligencia espaços democráticos de discussão sobre a sexualidade e a construção dos gêneros, do ponto de vista social/histórico/cultural e não biológico. A igreja, outra instituição secular, aplaude uma barbárie (de forma implícita) quando sataniza as sexualidades, demonizando e impedindo o acesso aos seus espaços ‘sacrossantos’ colocando o ‘outro como sodomita que carece de inquisição para expulsar o demônio da sexualidade. A família, outra instituição de poder, favorece em inúmeras possibilidades a exclusão dos seus filhos e/ou parentes, quando @s apaga, ou violentam através dos ditos e/ou silêncios que permeiam a relação cotidiana familiar. Quando controla e molda um futuro que na maioria das vezes, os pais destinaram aos seus. A mídia, tomada aqui como uma instituição que controla, governa, fabrica identidades e posicionamentos aceitos socialmente, favorece a ‘fobia’ quando constrói sujeitos caricatos, destituídos de inteligência, e/ou subalternos em relação ao “normal” (instituído e aceito como modelo socialmente). Quando fabrica sujeitos elitizados entendidos somente como potenciais consumidores, violentam outros que não são modelos. Institui que existem aqueles que não são/serão potenciais consumidores gays e que por isso ficam também à margem. O erro, já se constrói ideais de sujeitos somente para o mercado, que vivem na angústia de ter para ser aceito socialmente. Então, o que se verifica são práticas perversas de ‘fobias’ que se constroem e que são naturalizados na sociedade. Concordo que a homofobia mata muitos diariamente. No entanto, concilio que muitos dentro das suas comunidades também matam e silenciam outros diariamente. Por que faço tais afirmativas? Porque percebo que há também uma homonormatização que teima em essencializar os jeitos de ser lésbicas, gays, travestis, transexuais e trasngêner@s. Dessa maneira, quem for contra essa corrente essencializante, será excluído. Outra forma de violência, matar o outro socialmente porque não é uma lésbica-essência, um gay-essência, uma travesti/transexual/ transgênero – essência. O que quero nessa rasa reflexão é pensar em um dia que não mais acusaremos o outro pela sua condição sexual. Anseio que os outros nas Universidades não necessitam viver na clandestinidade com medo de serem rechaçados. Quero acreditar que um dia as pessoas não sintam a necessidade de categorizar o outro em ‘homem’ e ‘mulher’, ou no jeito de ‘ser homem’ e de ‘ser mulher’ como algo fixo, estável e coerente. Mas, que sejam vistos como pessoas, não sendo somente o amigo gay engraçado, o professor gay, a vendedora lésbica, a cabeleireira travesti ou os “anormais” que carecem de ‘correção’ e por isso, enquadramento social. Assim, espero que um dia, a sexualidade do outro não seja motivo para materializar o ódio sobre aquilo que não compreendo em mim. Dificilmente, uma sexualidade tranquila terá ódio ou aversão em relação à sexualidade do outro. Portanto, compreender as sexualidades e os diferentes matizes que envolvem essas preciosidades é (re)conhecer  as complexas teias discursivas que se imbricam na existência humana. Como bem afirma o grande Foucault, “eu me recuso a aceitar que alguém possa ser identificado com e através de sua sexualidade”. Eu sou contra a subalternização do outro em qualquer relação, e você? Assume uma postura mascarada do politicamente correto ou se esforça em compreender o porquê da não aceitação e/ou  do reconhecimento da diferença do outro?

segunda-feira, 6 de maio de 2013




Novo ano, 2013!
O ano de 2013 para você começa agora. Por isso a imagem alocada aqui simboliza o novo ano, o ano da Vitória. Temos diante da nossa jornada terrena a oportunidade de aprender com os nossos semelhantes. Gostaria de acreditar no acaso, no entanto, não aceito o acaso como algo ao acaso. Nessa relação de casos e acasos, tive outro presente na vida, conhecer o Rogério no ambiente profissional e pessoal. Ao ouvir algumas narrativas (gosto de ouvi-las), ditas a mim pela sua pessoa, percebi que, o que vale a pena na vida é tornarmos os dias melhores, sejam os nossos, ou dos outros. Não tinha dúvida nenhuma de que a grandeza do meu amigo e a sua beleza interior remete à força das ostras, que mesmo sendo violentadas e invadidas por ‘ciscos’ da existência (quantos ciscos, amigo!!!), produzem preciosas pérolas que embelezam e enaltecem o mundo. Também não duvido que, a sua pesquisa de doutoramento será uma preciosidade e uma belíssima contribuição à sociedade que terei a honra de acompanhar. Assim, quero que conte comigo para o que precisar, e saiba que, embora tenha pouco para oferecer, disponho sempre a servi-lo, porque aprendi (e aprendo) que o oferecer é um atributo aos outros que se retorna para nós mesmos. Na jornada da vida ser egoísta não tem sentido, devemos partilhar. Portanto, sigo muito feliz pela contribuição que esse meu amigo tem feito em minha jornada profissional, pessoal e acadêmica. Espero que outros diálogos, narrativas e intersecções estejam em nossos caminhos, para que possamos constituir novas formas de pensar e sentir a vida, tornando-nos melhores. Amigo, não restavam dúvidas de que o seu momento havia chegado e que seria mais uma prova de que tudo na vida tem algo para o nosso crescimento.  Ainda que sejam pequenos e infantes as nossas visões da vida (por engatinhar nessa vida), ainda que limitados nas nossas investidas cotidianas, quero que se lembre de seu valor e de sua preciosidade e confie muito em você. Confie em seus atributos e siga. Afinal, fazer pesquisa é querer ser diferente do que já se é, é querer trazer um “mais” nas diferentes formas de pensar e questionar o instituído. Parabéns pela conquista, doutorando!!!

sexta-feira, 3 de maio de 2013





Cidade movimentada

Cidade movimentada."pecuária".Cidade movimentada: praça Ipiranga.Cidade movimentada: Park Shopping.Cidade movimentada:compras.Cidade movimentada: bares/bistrôs/bangalôs.Cidade movimentada.Movimentada...movimenta...move. Cidade. ci.da.de. mo.vi.men.ta.da. Parou!!!